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terça-feira, 3 de setembro de 2019

O maior inimigo de uma mulher? A falta de tempo para si mesma Por Brigid Schulte

alguns meses atrás, enquanto eu lutava para conseguir tempo nos meus dias turbulentos para escrever, uma colega sugeriu que eu lesse um livro sobre os rituais diários de grandes artistas. Mas, ao invés de me oferecer a inspiração que eu esperava, o que mais me chamou a atenção sobre esses gênios criativos – na maioria homens – não foram seus horários e rotinas diárias, mas sim das mulheres em suas vidas.
Suas esposas os protegeram de interrupções; suas empregadas domésticas traziam seus cafés em horários estranhos; suas babás cuidava para que suas crianças não os atrapalhassem. Martha Freud não só arrumava as roupas de Sigmund toda manhã, como até colocava a pasta de dente em sua escova. A empregada de Marcel Proust, Celeste, não só trazia seu café diário, croissants, jornal e correspondência, mas também se prontificava a conversar com ele sempre que ele quisesse, muitas vezes por horas. Algumas mulheres são emocionadas somente pelo o que elas tiveram que aguentar, como a esposa de Karl Marx – sem nome no livro – que viveu na miséria com 3 de seus 6 filhos enquanto ele passava seus dias escrevendo no Museu Britânico.
Gustav Mahler casou-se com uma promissora compositora chamada Alma, depois a proibiu de compor, alegando que somente poderia haver um na família. Logo, era esperado que ela mantivesse a casa em total silêncio para ele. Depois de sua nadada vespertina, ele chamava Alma para acompanhá-lo, pisadas silenciosas para que enquanto ele compunha mentalmente. Ela se sentava num galho ou na grama, sem ousar perturbá-lo. “Existe uma batalha acontecendo dentro de mim!” Alma escreveu em seu diário. “E uma espera miserável por alguém que pense EM MIM, que me ajude a ME encontrar! Eu fui rebaixada a uma empregada!”
Diferentemente dos artistas homens, que se movem pela vida como se o tempo para si mesmo sem limites fosse um direito de nascimento, os dias e trajetórias de vida de um punhado de artistas mulheres destacados nos livros eram frequentemente limitados pela expectativa e deveres da casa e do cuidado. George Sand sempre trabalhou tarde da noite, uma prática que começou quando ela era adolescente e precisava cuidar de sua avó. No começo, os dias de escrita de Francine Prose eram definidos pelo horário de ida e volta do ônibus escolar de suas crianças. Alice Munro escreveu nas “lascas” de tempo que achava entre o trabalho doméstico e o cuidado com as crianças. E Maya Angelou fugiu dos deveres da casa, deixando completamente ao se hospedar num quarto de hotel barato para pensar, ler e escrever.
Até mesmo Anthony Trollope, que famosamente escrevia 2,000 palavras antes das 8h da manhã todos os dias, provavelmente aprendeu com sua mãe tal hábito, quem começou a escrever aos 53 anos de idade para auxiliar seu marido doente e seus 6 filhos. Ela levantava às 4h da manhã e terminava seu trabalho a tempo de servir o café da manhã à família.
Penso em todos os livros, pinturas, música, descobertas científicas, filosofia aprendida em sala de aula – a maioria de homens. O maestro Zubin Mehta disse uma vez, “Eu simplesmente não penso que mulheres devam estar numa orquestra”, como se elas não tivessem o temperamento ou talento. (As audições às cegas acabaram com essa noção.) Penso numa entrevista com Patti Scialfa sobre como ela difícil para ela escrever música para seu álbum solo porque suas crianças a interrompiam e demandavam seu tempo de uma forma que nunca fariam com seu pai, Bruce Springsteen. E aí me atingiu: não é que as mulheres não tivessem talento para deixar suas marcas no mundo da ideia e das arets. É que elas não tinham tempo para isso.
O tempo da mulher vem sendo interrompido e fragmentado pela história, os ritmos de seus dias circunscritos por tarefas entediantes do trabalho doméstico, cuidados com a criança e familiar – mantendo os laços familiares e comunitários fortes. Se o necessário para crias são longas extensões de tempo ininterrupto e tempo de concentração, tempo para escolher o que quiser fazer, tempo que você possa controlar, isso é algo que uma mulher nunca teve o privilégio de esperar, pelo menos não sem ser apontada como uma egoísta indecorosa.
Até hoje, pelo mundo todo, com tantas mulheres na força de trabalho paga, algumas mulheres ainda passam pelo menos duas vezes mais tempo que homem fazendo trabalhos domésticos e cuidando de crianças, às vezes muito mais. Um estudo com 32 famílias em Los Angeles encontrou que o tempo ininterrupto de lazer da maioria das mães durava, mais ou menos, não mais que 10 minutos em extensão. E, mapeando a vida cotidiana de acadêmicas, a socióloga Joya Misra e seus colegas viram que o trabalho diário das professoras mulheres eram mais longos do que seus colegas homens, quando contabilizado o trabalho não pago em casa. E mais, ela viu que os homens e mulheres que estudou gastaram a mesma quantidade de tempo no trabalho pago. No entanto, o tempo de trabalho forma das mulheres também sofria interrupções e era fragmentado, picado por mais serviços, aconselhando e palestrando. Os homens passavam seus dias de trabalho em longas extensões sem interrupção durante seu tempo de reflexão, pesquisa, escrita, criação e publicação para se promoverem, fazerem seus nomes, progredir em suas carreiras e espalhar suas ideias pelo mundo.
Em sua aula de Teoria do Lazer, Thorstein Veblen escreveu que pela História as pessoas que tinham a habilidade e de escolher e controlar seu tempo eram os homens de alto status. Ele dispensou as mulheres na página dois, escrevendo que elas, junto a servos e escravos, sempre foram responsáveis pelo trabalho árduo que permite que aqueles homens de alto status pensem seus grandes pensamentos. Pesquisadoras feministas argumentaram que as mulheres frequentemente tinham, no máximo, “lazeres invisíveis” – agradáveis, porém produtivos e socialmente sancionados, atividades como costurar e cozinhar em grupo ou clube de livros. Mesmo assim, o lazer por si só, criando tempo para si mesmas, era nada mais do que um corajoso, radical e subversivo ato de resistência. Mais fácil, um pesquisador brincou, se, como o escritor, compositor, filósofo e místico Hildegard de Bingen, você se tornasse freira.
Pesquisadoras feministas também viram que muitas mulheres não sentem que merece longas extensões de tempo para si mesmas, da forma como os homens sentem. Elas sentem que precisam ganhar esse tempo. E o único jeito de conseguir é ao final de uma longa lista de afazeres: as tarefas do dia, como Melinda Gates escreve em seu novo livro, “Matando os sonhos de uma vida”. De fato, eu estive tentando conseguir o tempo para pensar e escrever esse artigo por mais de 4 meses. Todos os dias que sentei para começar, recebia algum telefonema ou e-mail emergencial de meu marido, filho ou filha; minha mãe, lidando com a estranha fronteira e burocracia sem fim de uma recém viúva; a companhia do cartão de crédito; ou um mecânico sobre uma emergência ou outra qualquer atenção imediata para evitar algum desastre.
Eu lembro de entrevistar a psicóloga Mihaly Csikszentmihalyi, famosa por identificar o estado de fluxo (flow), o pico da experiência humana quando alguém fica absorto numa tarefa significativa em que o tempo efetivamente desaparece. É o estado em que artistas e pensadores dizem ser obrigatório para criar qualquer coisa de valor. Eu perguntei para ele se a pesquisa explorava se as mulheres tinham a mesma oportunidade de chegar ao fluxo tanto quanto os homens. Ele pensou por um tempo, depois me contou a história de uma mulher que se perdeu no tempo enquanto passava as blusas do marido.
A poeta Eleanor Ross Taylor viveu sua vida na sombra do marido, o ganhador do Pulitzer de novelista, escritor de contos e professor Peter Taylor. “Durante os anos, muitas vezes eu fala ao poemas ‘Vão embora, eu não tenho tempo agora’”, ela disse a um entrevistador em 1997. “Mas isso era um pouco de preguiça. Se eu realmente quisesse escrever, eu poderia. Pelo menos eu deixava a casa escovada e encerada e esse tipo de coisa”.
Eu sinto uma sensação de perda quando eu penso nos grandes, não-escritos poemas que ficaram atrás do chão encerado. E por um bom tempo, pensei que a expectativa de que os outros fossem atendidos primeiro e que os pisos fossem polidos e que era ela quem deveria mantê-los dessa maneira, era o que mantinha aquelas histórias não contadas enroladas dentro dela, comprimidas, como Maya Angelou escreve, a ponto de sofrer. Mas me pergunto se não é também que as mulheres sentem que não merecem tempo para si mesmas, ou o suficiente disso em extensões ininterruptos. Gostaria de saber se também sentimos que não merecemos contar nossas histórias não contadas, que elas podem não valer a pena ser ouvidas.
O escritor VS Naipaul afirmou que nenhuma mulher escritora era seu correspondente, que a escrita feminina era muito “sentimental”, sua visão de mundo muito “estreita” – porquê, você sabe, a vida dos homens são o padrão da experiência humana. E frequentemente penso: se uma mulher escrevesse com todo cuidado uma novela de seis volumes sobre sua própria vida teria recebido a mesma atenção e clamor internacional que o escritor norueguês Karl Ove Knausgaard, autor de “Minha Luta”?
Virginia Woolf uma vez imaginou o que teria sido de Shakespeare se ele tivesse nascido mulher, ou se ele tivesse uma irmã igualmente talentosa. (Pense na prodígio musical Nannerl Mozart, cujas primeiras composições foram louvadas como “belíssimas” pelo irmão Wolfgang, mas que se perdeu, ou permaneceu enrolada por dentro, não-escrita, enquanto ela desaparecia num casamento esperado, porém sem amor).
A mulher Shakespeare, Woolf escreveu, nunca teria tido tempo ou habilidade de desenvolver sua genialidade – barrada da escola, mandada a se preocupar com o ensopado, esperado a se casar jovem e espancada caso não o fizesse. No conto de Woolf, a irmã de Shakespeare, apesar de seu grandioso dom, enlouqueceria, morta ou silenciada num chalé na floresta e taxada como bruxa.
Mas esse não era o final da história. Woolf imaginou que, no futuro, uma mulher genial nasceria. Sua habilidade floresceria – e a expectativa era de que sua voz, sua visão, era digna – dependeria inteiramente do mundo que decidíssemos criar. “Ela viria como se tivéssemos trabalhado para ela”, escreveu Woolf.
Eu não afirmo ter nenhuma genialidade. Mas às vezes, sonho que estou sentada numa sala empoeirada na cozinha do lado oposto de outra versão minha, que senta, ilimitada pelo tempo, bebendo quietamente uma xícara de chá. “Gostaria que visitasse mais vezes”, ela diria para mim. E me pergunto se aquela dor lancinante no meio da noite que, às vezes, se instala como pavor em torno do meu plexo solar pode não ser apenas porque há tão pouco tempo para contar minhas próprias histórias não contadas, mas porque temo que o que pode estar enrolado por dentro pode não valer a pena prestar atenção de qualquer forma. Talvez isso seja o que não quero encarar na sala empoeirada que sonho.
Também penso: e se nós trabalhássemos para criar um mundo para as irmãs de Shakespeare e Mozart, ou para que qualquer outra mulher realmente pudesse prosperar? O que aconteceria se nós decidíssemos que as mulheres merecessem o tempo de ir as suas salas empoeiradas e ficassem à mesa da cozinha? E se todas nós decidíssemos visitar com mais frequência, tomar uma xícara de chá com nós mesmas, ouvindo as histórias enroladas enquanto elas se desenrolam, sabendo que elas tem valor simplesmente porque são verdadeiras? Adoraria ver o que aconteceria em seguida.
Brigid Schulte é uma ganhadora do Pulitzer de jornalismo pelo  The Washington Post e The Washington Post Magazine. Ela também é uma colega da New America Foundation. Overwhelmed by Brigid Schulte foi publicado por Bloomsbury in March 2014
Esse artigo que traduzi foi publicado em 21 de julho de 2019 e está no The Guardian (https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/jul/21/woman-greatest-enemy-lack-of-time-themselves)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gênero: um binômio difícil

Outro dia (recentemente até), estava conversando com duas amigas do trabalho. Aliás, uma conversa bem legal, sem muitas polêmicas. São duas pessoas muito abertas e progressistas! Ainda bem que tenho o costume de me rodear por pessoas assim, meio que naturalmente. (Pessoas abertas costumam encontrar seus pares meio que sem querer!)

Enfim, estava conversando sobre a preocupação do mundo (pessoas e sociedade) de que a criança desde seu nascimento tenha um gênero BEM definido. A partir de coisas que muitas vezes achamos ser simples, mas que na verdade tem um papel fundamental na primeira infância: roupas, brincadeiras, atividades, programas infantis, comida, linguagem, afeto, religião. (Listei algumas, sabendo que há mais do que essas)

Expressei uma preocupação muito grande para mim. Cada vez mais tenho me deparado com uma sensação, uma percepção, que muitos não vão concordar, mas que com a qual eu tento trabalhar na minha função de mãe. Crianças não tem gênero! Crianças tem genitais que em algum momento irão lhe dá prazer individual e íntimo e que se desenvolverá, num processo que dever ser respeitado e não apressado ou muito menos oprimido, para um prazer com outras pessoas (ou não, isso também tem que ser levado em conta, mas uma coisa de cada vez).

Eu repito: crianças não tem gênero. O que define o gênero é a sociedade externa - os pais, as mães, os avós, os tios e tias, o vizinho, xs professorxs, a mídia, o mercado. Todo mundo, antes das crianças crescerem e se estabelecerem como homens e mulheres. E tem que ser como homem ou mulher, porque qualquer coisa que fuja disso também vai ser execrado, taxado, julgado, e tudo o mais, MENOS respeitado.

Isso, na maioria dos casos (por favor, não me venham com exceções), é opressor.

Definir um gênero é muito pesado, é muito complicado, é muito complexo. Imputar isso a uma criança é muito sério. A criança é criança!

Meu maior medo é fazer com que meu filho se sinta obrigado a ser alguém. Querendo ou não! A obrigação por si só acaba, termina, devasta a experiência maravilhosa de se descobrir. Além disso, eu realmente acredito que gênero está cada vez mais relacionado ao seu papel sexual na sociedade: submisso ou ativo. Garanhão ou piranha. Respeitoso ou santa. Preso a um rótulo ou preso a um rótulo?

Pensando esse processo pela qual a criança passa, eu fico com muito medo de impor algo ao meu filho. E nessa fase da primeira infância é o momento que mais temos controle sobre a criança. Eu controlo muita coisa: choros de reclamação, a comida, a bebida, o banho, o que assiste, o peso, a altura, as vacinas, as doenças (ou tudo que faço para que não tenha nada). Mas isso, eu não quero controlar!

Faço esforço, converso com o pai, converso com minhas amigas-mães, com minhas amigas que não são mães. E chego a conclusão que definir um gênero é mais difícil do que não definir nada.

Reconheço que vivo numa sociedade que depende muito desse binômio. Tenho medo também de criar meu filho numa bolha. Mas simplesmente é algo que não é fácil pra mim.

Pra mim, Paco será um menino se ELE quiser, será uma menina se ELA quiser e será agênero se quiser. Eu realmente acredito que isso não cabe a mim, não cabe a você, não cabe ao vizinho, não cabe a ninguém.

#ProntoFalei! (UFA!)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A sugestão do suco de laranja que partiu meu coração

Meu filho caga uma vez por semana! Não sei se ele tem prisão de ventre ou não... Ele antes sofreu com cólica e agora sofre de prisão de ventre. O pequeno ENCHE a fralda de cocô uma vez por semana. É um cocô fedidíssimo (velho), pastoso quase duro (velho) e com cor escura e forte (velho) - diferente desses esperados, que são meio alaranjado e cheio de pontinho branco.

Isso nos dá uma certa preocupação. Não sei se é porque ele produz poucas fezes ou se de fato o intestino dele não colabora. São algumas teorias que surgem na cabeça da pediatra dele, na minha cabeça e na do meu companheiro. Um dado importante: Paco é magro e, segundo aquele gráfico filho de uma égua na caderneta dele, ele aparece entre as linhas vermelha e preta (o que deixa a avó dele meio desesperada, que por consequência deixa a MIM meio desesperada)... Sinceramente, desencanei disso... Mas não do cocô!

Me deixa intrigada e preocupada, porque penso e sei que prisão de ventre é algo muito incômodo. Quem tem, sabe como é! Um cocô... (Só que sem cocô!) Dá para perceber que tem algumas semanas que ele sente um desconforto. Tem dificuldade para dormir às vezes e costuma ser na época em que está mais longe do dia em que conseguiu cagar. Tadinho...

Além dessa óbvia preocupação que me deixa cabreira, tem a tal da opinião alheia. A opinião alheia sobre o que você deve fazer sobre alguma coisa qualquer que seu filhx possa estar tendo é de matar! Vou ser justa: tem pessoas que são sensatas e que conseguem simplesmente dar a opinião sem impor ou dar uma sugestão baseada na relação entre teoria e prática (não confundir com pragmatismo, por favor!). Agora, quem costuma abrir a boca para falar algo faz de forma impositiva, bastante julgadora e com uma certeza que me dói!

Costumam completar a frase, qualquer frase (!), com: "eu fiz assim e deu certo", "na minha época se fazia desse jeito", "eu não entendo o porque disso agora", "um monte de teoria, teoria, teoria... o que conta é a prática!", "isso, na minha época, não fazia mal algum", etc etc etc... E, na maioria das vezes, não se conformam quando você faz diferente delas ou tem uma opinião contrária/oposta. Mas, pessoas são pessoas, né?! =P

Enfim, para ser sincera, não me incomoda, não me incomoda mesmo... (Só quando me enchem o SACO!) Já me incomodou mais. Quando você traz o seu filhx para casa, VOCÊ quer cuidar dele, por maior que seja o medo que ronde sua cabeça... Isso é fato! Então, qualquer coisinha que te falem costuma ser incrivelmente incômodo, até por que, a gente está muito frágil e insegura nessa época. Depois, tudo fica mais fácil e se está com mais certeza sobre como se quer criar e cuidar de filhx. Você relaxa!

O problema mesmo é quando a opinião contrária a sua vem de dentro da sua casa. =/

Acho que foi a primeira vez que de fato não gostei de algo que Matheus me disse. Acho que foi a preocupação com o cocô. Só sei que ele me veio com a frase: "acho que a gente devia tentar um suco de laranja lima para ver se solta". Caralho! Não! A gente concordou que não ia recorrer a qualquer outro alimento antes dos 4 meses, senão o peito, e sem auxílio da pediatra! A gente concorda que o leite materno é o melhor para o bebê até os 6 meses! Como, como, como assim você me vem com essa?!

Sério, eu fiquei chateada... Poxa vida... A gente não recorreu a fórmula quando fomos alarmados sobre o pesos do Paco, aí vamos recorrer a laranja lima por causa de um cocozinho? Poxa vida...

Não concordei... Não mesmo... Eu sei que muitas pessoas recorrem a chá e suco e que fazem uso da fórmula. Não julgo, não falo contra, não acho errado, nada disso, mas isso não é uma opção para mim. Não gosto de fórmula, acho ruim, costuma causar prisão de ventre e não se iguala nem de perto ao leite materno. Acredito que seja necessário em último dos últimos casos! Para mim, o melhor é incentivar a mãe a ordenhar muito e tentar estimular ao máximo a pega e a produção de leite.

Não recorri ao chá quando ele teve cólica. Não é bom dar água antes dos 6 meses. Gera saciedade e isso confunde o bebê. Além disso, o leite materno é o melhor alimento para ajudar a amadurecer o intestino e não causa cólica. Pelo contrário, com a pega correta no bico do peito, ajuda, pois o movimento intestinal faz com que o bebê solte os gases. A única coisa a qual recorri foi a simeticona, já que ela não fica no organismo. É eliminada junto dos gases.

Para a prisão de ventre, recorri duas vezes ao supositório de glicerina, por indicação da pediatra e porque o excesso de fezes estava incomodando por demais a criança. Senão, teria esperado a eliminação sem nada... O supositório também não é absorvido pelo organismo, é absorvido pelas fezes, que amolecem e saem. Às vezes nem se desfazer acontece. O simples toque provoca a cagada! Por isso, não precisa de suco de laranja lima para fazer soltar. Não precisa de suco de laranja lima para ser absorvido pelo organismo e não ser totalmente eliminado. Não precisa de suco de laranja lima para nada nesse momento da vida dele.

Para não usar o supositório, recorri a algo melhor: uma massagem depois do banho quentinho. Movimentos circulares, da direita para a esquerda com um óleozinho próprio para bebê! Cagou no dia que fiz isso! Ou seja, para mim, pessoa que é "a pior mãe do planeta", a tentativa foi acertada... =]

Moral da história: não deixe de tentar algo que acha você acha que é correto para sua cria... Sério! Insegurança é um sacooooooooo...!!!

terça-feira, 24 de junho de 2014

O adestramento de bebês (um post um pouco mais sério do que de costume)

Lendo algumas centenas de artigos na internet sobre criação, bebês, cotidiano da criança, métodos eficazes e etc, me deparei com uma sensação: me parece que a grande maioria do teóricos infantis querem ADESTRAR as crianças desde o seu nascimento. Parecem esquecer que tratamos de pequeninos seres humanos e não cachorros. Seres humanos que, por mais instintivos sejam, tem vontades e desejos como todos nós - adultos que raciocinam e refletem sobre sua vida, tão livres quanto os passarinhos (só que não!).

A impressão que me dá é que nos deparamos com uma gama de pediatras, médicos, filósofos, palpiteiros e tantos outros que se convenceram - e querem nos convencer - que o correto é adaptarmo-nos (e as nossas crianças) à pressão da sociedade capitalista. Sociedade focada no trabalho e num cotidiano rígido, de horários rígidos, com regras rígidas, rígida, rígido, rígidas, rígidos... AAAHHH!!! Se a gente que é adulta não gosta, não se adapta facilmente, porque cargas d'água queremos que nossxs filhxs gostem e se adaptem logo, rápido e rasteiro a isso???

"Não se deve pegar o bebê no colo para não mimá-los". Oi? Como se mima um bebê? Dando atenção e segurança necessárias e, ao mesmo tempo, evitando que chorem?

"É bom deixar chorar um pouco no berço, pois senão eles vão chorar sempre". Ah, tá! Então quer dizer que você gosta de ficar chorando cântaros, se esgoelando, sozinho no escuro dentro de um cercado, sem ninguém para te consolar... Aham!

"Não se deve deixar a criança dormir na sua cama ou no seu quarto depois de 3 meses, senão eles nunca irão dormir sozinhos". É, até hoje sinto falta de dormir com meus pais na cama deles. Nossa! Como eu queria dormir no quarto deles: eles, eu, meu companheiro e meu filho.

"Tem que tomar cuidado, pois crianças podem ser manipuladoras se não derem-lhe limites" Sim, isso faz todo o sentido do mundo... Como se essa necessidade de colocar regras e limites não fossem uma forma de manipular as crianças.

Meu companheiro tem um adesivo colado em seu laptop com uma frase do Michel Odent, "Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer" - o adesivo foi uma forma dele contribuir para o filme "O renascimento do parto". Não concordo por inteiro com essa frase, mas acho que entendo o objetivo dele ao falá-la. Existe um esforço imensurável em desde a concepção em fazer da criação uma reprodução do ser ao nosso modo de vida. Leio nessa frase uma tentativa de dizer que para mudar o mundo é necessário romper com as teorias e formas de criação que tentam criar pequenos seres adaptados ao mundo onde vivem. Aceitar as regras e os limites desde sempre, para mim, é criar adultxs adaptadxs e não adultos transformadores (taí minha parte militante falando alto!).

Isso vai mais além do que simplesmente criar uma criança capaz de respeitar as pessoas, ser sensível e solidária, de saber distinguir o certo do errado etc etc etc... Se fosse isso, viveríamos num mundo de arco-íris... E não vivemos! Não vivemos num mundo em que as diferenças são respeitadas - culturalmente, socialmente, individualmente falando. Vivemos num mundo oposto a isso! Acredito que existem pessoas adultas que já perceberam isso e que fazem de tudo para mudá-lo. Mas também vejo que muitas dessas pessoas, sem querer (e acreditando nessas teorias), acabam por optar por uma criação adaptativa e não transformadora.

Companheiros de luta, extremamente esclarecidos e compreensivos, que não percebem, ou simplesmente não acreditam, nas suas capacidades enquanto pais e mães em criar seus filhxs a sua maneira. Focam mais na rigidez do que no afeto, focam mais em pensar no problema do mimo do que aproveitar o contato físico, focam no medo de seus filhxs serem pequenxs manipuladorxs e mandarem nelxs do que focar em demonstrar e falar sobre o amor que sentem por eles.

Só quero deixar muitíssimo claro: a pior mãe do planeta não tem teoria NENHUMA! Não tenho estudo nem habilitação para dizer o que é certo ou errado, inclusive, não acredito muito nessa dicotomia aí. O que tenho é um incômodo em relação a essas teorias pois, para mim, mais uma vez, me fazem acreditar que é sim uma adaptação ao nosso modo de vida - capitalista, focada no trabalho, com horários rígidos e que necessitam de adultos obedientes e facilmente reprimíveis.

Como péssima blogueira, serei piegas e com muito orgulho: o AMOR é transformador! Principalmente quando estamos falando de crianças.

Voltando a frase do Odent, o parir de um jeito diferente, sem massivas intervenções médicas e admitir que a grande maioria das mulheres sabem parir - mesmo com tanta tecnologia disponível - pode ser um admitir que mães e pais são capazes sim de criar seres sem grandes intervenções externas. E isso é transformador. Pois, como assim você conseguiu parir sem um médico te dizendo o que fazer? Como assim você conseguiu criar uma criança sem castigá-la, puni-la, ser rígido e não mimar?

Acho que esse post tem muitas nuances e muitos níveis de discussão, por isso vou terminá-lo aqui e retomarei os vários assuntos aqui abordados em outras postagens. Porém, deixo aqui uma provocação: estamos criando nossas crianças e filhxs para serem adultxs transformadores ou facilmente adaptáveis?

Como a pior mãe do planeta, sempre vou questionar as teorias que apresentam caminhos fáceis de criação por meio do adestramento. Como militante, minha experiência diz que nenhum fim justifica o meio, inclusive é o meio que faz chegar a um fim. E, para mim, querer uma criança obediente, quietinha, "boazinha" dentro de casa é querer uma criança adestrada.

(Mas vai que eu queimo a minha língua...)